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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (58)

No último domingo, dia 22 de agosto, foi dedicado ao folclore. Então, rememoramos o saber do povo com suas lendas, suas crenças e a oralidade que perpetuou (e perpetua) todas as manifestações . Tais manifestações, mesmo no anonimato, insere-se na alma do povo.
Não há içarense que não tenha conhecimento de uma história fantástica, ou folclórica como falamos atualmente. Todas as mães mais vividas, ou que tiveram contato com outras mães de mais idade, conhecem os malefícios da bruxa para um recém-nascido. As pessoas de áreas rurais, especialmente as mais suprsticiosas temem certas horas “mortas” pela possibilidade da presença de lobisomem, boitatá e mulas sem cabeça. Temos localidades em que os causos das assombrações são mais freqüentes e as personagens chegam a conviver normalmente na comunidade como se fosse uma coisa natural.
Sobre o folclore e suas manifestações há toda uma literatura brasileira, especialmente nordestina. Porém, como o folclore é transmitido oralmente, ele passa a ter a contribuição regional de onde é contado. É comum ouvirmos um causo e pensarmos que já conhecemos com outras personagens ou com outro palavreado, porém é tão similar que chegamos a conclusão que vem de uma mesma raiz; já faz parte do folclore.
Quando criança, tive muito contato com meus avós e bisavós. Ao cair da noite, enquanto descansávamos o jantar, geralmente na boca do fogão, ouvindo o crepitar das chamas, meus avós contavam os causos e nós ouvíamos cheios de apreensão.Por alguns momentos tremíamos de medo, mas logo que o sol iluminava o mundo, o medo ia embora e nos deixava a vontade para a exploração do que ouvimos. O medo nunca impediu que fôssemos a procura da comprovação. Mas o importante é que os causos eram tão instigadores que sempre ansiávamos pela hora de ouvi-los. Boitatás, lobisomens, mulas sem cabeça, bruxas e outras figuras estavam sempre presentes nas horas da oralidade familiar. E este convívio com o folclore marcou tanto a minha infância, que produzi o primeiro volume do folclore no sul regional intitulado: Raízes do Saber Popular: os ritos, os mitos e o folclore.
É o apanhado de crenças como as benzeduras, que me foi repassado com carinho para desmitificar o poder da cura como bênçãos e não como um rito maligno. Nas fórmulas das benzeduras estão os nomes das pessoas e a sua localidade, embora elas afirmassem que possivelmente perderiam o poder da cura por haverem revelado a sua oração. O capítulo III fala dos principais folguedos, um misto de religiosidade e o profano que permeia a fé popular. Há nas manifestações do boi de mamão e cantorias dos Reis, toda a expressividade das manifestações Natalinas, da fé no Menino nascido na gruta de Belém. Porém a composição das personagens e a teatralização do boi de mamão, reflete o folclore e a contribuição étnica onde Ele se apresenta. Depois de uma introdução étnica, há a contribuição regional que vai dar uma série de variações no enredo, nas figuras e na própria manifestação popular.
Quem acompanhou manifestações populares natalinas não esqueceu de apresentadores como Almiro Marcelino, em Pedreiras; a Família Espanhol, em Içara; os cantadores de Reis Ângelo e David; seu Neneco Cardoso e, posteriormente o Joelson. Para quem estuda e pesquisa é visível as transformações ocorridas nos grupos devido a evolução sociocultural. No último capítulo há uma mostra dos cantares e das danças que somente em ocasiões de saudosismo as famílias costumam manifestar. As etnias africanas, polonesas, italianas e açorianas estão representadas em Raízes do Saber Popular. Afinal foi do caldeamento das e-tnias colonizadoras do município que nasceu a cultura do povo içarense. Falar de cultura é falar de folclore e das mais diversas contribuições populares.
Nos capítulos 5 e 6, há uma mostra dos causos de nossa região envolvendo as personagens mítica de décadas passadas. As pessoas que me repassaram os causos juram que é tudo verdade pois elas viram e ouviram tudo o que me contaram. Ainda hoje, há pessoas que me convidam a um passeio em suas casas para me contarem causos que ouviram. Depois que contam os causos, elas mostram o lugar onde ocorreu, e o medo que sentiram. Há uma singeleza tal em suas declarações que não vejo motivo de contestação, mas de um registro. Então meu arquivo está repleto de causos e casos içarenses, acrescentando sempre um ponto a mais no folclore de nossa terra e de nossa gente.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (57)

Desci a Rua Vitória e, próximo ao trilho da malha rodoviária, entre o anúncio da temperatura, li a frase: Içara rumo aos 50 anos. Meditei sobre a frase e calculei o contingente que soma uma idade secular, especialmente as localidades povoadas no percurso da distribuição dos imigrantes açorianos: Urussanga Velha, Terra Firme, Lombas Pedreiras, Faxinal, Lagoa dos Esteves.
Revi mentalmente toda a rota que movimentou o avanço dos lagunenses e luso-açorianos na conquista do Rio Grande do Sul. E quando o meu pensamento evocou a localidade de Lagoa dos Esteves, lembrei-me dos livros que li sobre os assentos de batismos da Freguesia de Nossa Senhora Mãe dos Homens, no Arquivo Eclesiástico da Mitra Metropolitana. E, como um pensamento puxa o outro, revivi o impacto emocional que a pesquisa me causou com certas descobertas e outras confirmações da pouca certeza. Afinal sou içarense de certidão de nascimento e de imenso amor telúrico, o que me faz amável de minhas raízes e admiradora dos antepassados. Mas no que tange a escrita, sou incansável procuradora das comprovações fidedignas. Refuto qualquer afirmação baseada em achismos e que muitas vezes mexem com o emocional das famílias envolvidas.
Pois bem, meu devaneio foi freado e a leitura feita em um livro de assentos do batismo de escravos aflorou. Entre 1860 até 1888 houve assentos de escravos pertencentes as famílias que residiram em Içara, nas localidades litorâneas. Mas a surpresa maior foi encontrar na família de José Ignácio do Nascimento, a escrava Maria que deu à família três crias pardas e já amparada pela Lei do Ventre Livre: João, Miguel e Nicolau. Meu bisavô, Manuel Ignácio do Nascimento viveu e deixou os filhos na localidade de Ausentes e usando os sobrenomes I-nácio ou Nascimento, nunca mencionaram qualquer presença de escravos para o trabalho da família. Agricultores, pescadores, artesãos exímios, eram apegados à tradição dos ancestrais, especialmente nas manifestações de fé. Conheci o fandango de promessa em louvor a São Gonçalo na casa do tio-avô Ângelo, que havia prometido pela cura de uma das filhas que contraiu a poliomielite. A promessa, segundo tio Ângelo, foi tão bem aceita que a menina ficou completamente curada. Familiares e vizinhos acorreram à manifestação para que a promessa fosse paga.
Outra tradição sagrada para os Ignácios (abrasileirado para Inácio) ou Nascimento era o boi de mamão e a Cantiga dos Reis. Tão forte era a fé na Cantiga dos Reis que Manuel Ignácio do Nascimento pediu que levassem o corpo à sepultura ao som da rabeca. Ele queria que o cortejo participasse de uma Cantoria de Reis e que não houvesse choro e lamentos, somente a alegria de poder agradecer ao criador com uma bela louvação ao nascimento do filho de Deus humanizado na família de José e de Maria, a família de Nazaré. Todos participavam com muita fé e respeito.
Minha emoção foi ao ápice quando reconheci a procedência dos cuidados com as roupas e o sapatinho de cetim que Inocência Clara de Jesus falava de sua terra e do trabalho em que ela participou pela primeira vez. Depois, entre a selva e olhares dos selvagens, suas recordações foram sendo ignoradas e refutadas como fruto de caduquice. Precisou que uma neta de terceiro grau encontrasse entre os registros, a prova de uma origem de prosperidade adormecida na humildade em que meus ancestrais viveram. Se havia admiração pelo caráter íntegro dos Inácio Nascimento, houve muito mais reconhecimento de sua atuação na formação de nossa gente içarense com a contribuição de Juvêncio, Ortêncio, José, Ângelo e Otávio que seguiram a tradição do pai, Manuel Ignácio do Nascimento e nos legaram com uma vida de comprometimento com nossa terra e com nossa gente.
Até a próxima edição com mais um assunto de interesse cultural dos içarenses!!!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (56)

Diariamente os meios de comunicação apresentam comerciais que procuram vincular um sentido através de emoções e valores, status e vantagens, estilo e beleza, sedução e erotismo, aos produtos anuncidos. As pessoas por meio desses instrumentos aprendem a consumir novos produtos ou a manter a fidelização aos já conhecidos e consumidos. E se o produto é desconhecido e de difícil aquisição, como produtos da tecnologia atual, há uma intensa campanha dirigida a população mundial. O resultado é a transformação do planeta numa aldeia global dado aos complexos industriais gigantescos. E o final do processo tecnológico foi o entendimento do significado de qualidade de vida que se entende atualmente como o máximo de satisfação das necessidades básicas: alimentação, moradia, vestuário, saúde, relacionamentos. Seguem-se as necessidades secundárias que estão relacionadas aos sentimentos de valorização, autoestima: educação, segurança, dignidade, estética, beleza, criatividade, entre outras necessidades que estruturam o narcisismo positivo de uma população.
E quando o consumismo é a busca para preencher insatisfações como a baixa autoestima e o vazio próprios do narcisismo negativo, os produtos são oferecidos como promessa de felicidades. Um exemplo claro tem sido a propaganda e o estímulo para a aquisição da beleza eterna, do corpo perfeito segundo o esteriótipo de beleza. Outra busca é voltada ao modelo perfeito, o super-herói seguido do prazer virtual e o devaneio para as drogas. E assim, o estudo sobre as necessidades humanas nas diversas fases do desenvolvimento tem sido objetos de pesquisas.
A fase humana de maior atenção há algumas décadas é a criança. Há um apelo muito grande dos fabricantes e dos publicitários com o brinquedo educativo, o programa de televisão adequado, as escolas adaptadas a esta ou aquela metodologia ou teoria, a medicação mais eficiente, etc.. o mesmo vem acontecendo com os adolescentes que têm si-do merecedores de empenho para compreendê-los desde a educação até a sexualidade. Os shoppings têm se preocupado em oferecer lojas atrativas e serviços envolventes. Mas uma questão crucial precisa ser observada e, se possível resolvida. Diante de tanta sedução, onde fica a criatividade humana? Se passarmos a ser apenas consumidor, como ficará o vazio existencial depois dos quarenta? Sabemos que a população dessa faixa etária ainda cultiva valores básicos como a leitura convencional. Se perguntarmos aos adolescentes, eles nos responderão que livros é coisa do passado. O adolescente gosta mesmo é da leitura virtual, das pesquisas na net, do bate-papo virtual e outros tantos apelos tecnológicos. É uma verdade. Eu vejo professores encaminhar os alunos para as pesquisas na net e darem notas (até ótimas) para recortes de textos sem nem mesmo compreendê-los. Muitos resumos e interpretações são retirados e colados sem o aluno ao menos abrir o livro e ler um só parágrafo. E então eu me pergunto: como será o futuro desses alunos, sobretudo porque eles serão profissionais. Como fica um professor que não lê, não se informa, não aprimora o conhecimento sistematizado? Como o médico vai trabalhar com a vida humana, as diversas possibilidades de curas, a evolução da medicina além dos recortes que pesca na mídia? Como um engenheiro irá aprimorar o conhecimento embasado na experiência do construtor e na gama de recursos que a tecnologia moderna põe e dispõe na velocidade vertiginosa da era tecnológica. E o advogado que não tiver o hábito da leitura, como ficará diante de tantos adendos e emendas de leis? Ainda penso que leitura é fundamental. Pois bem, a feira literária está em andamento na cidade de Criciúma. A AILA – Academia Içarense de Letras e Artes, engajada com a cultura do içarense está participando do evento. Somos trabalhadores e não somos dispensados e nem recebemos recurso alguma para participarmos. Porém, cientes de que a cultura de um povo fica registrada na escrita, buscamos estar em espaços onde nos acenem com um convite para a nossa participação e, sobretudo onde possamos mostrar o nosso fazer literário. Pena que não possamos fazer com tanta frequência, pois nosso município é alheio ao nosso amor pela literatura. Parece que não há espaço na cultura municipal para a literatura, embora o içarense seja um povo tão criativo. Mas, fazer o quê... Continuamos sonhando e participando com quem nos acolhe. A agenda é rica e até sábado Criciúma fala de literatura e acolhe os escritores que lutam pela vida da literatura como o maior registro cultural de um povo. E nós, da AILA, estamos entre eles...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (55)

Em Urussanga Velha descemos para observarmos o monumento dos 500 Anos do Descobrimento do Brasil. O monumento é o marco de meio milênio de história luso-açoriana e da origem do município de Içara. Foi em Urussanga Velha que se caldeou as raízes formadora do povo e da cultura içarense. A lagoa que foi um berçário para a desova das tainhas, recebeu o impacto das lavagens do carvão de Urussanga que esgota as águas poluídas pelo rio Urussanga até a Barra do Torneiro. Parece incrível a poluição descer de tão longe e destruir um recurso natural que foi o suporte econômico daquela localidade.
Daí pode-se explicar a razão do subdesenvolvimento de uma comunidade antiga. Perder o foro de Distrito, em detrimento ao crescimento da vila de Içara até é compreensível, afinal aconteceu com tantas localidades litorâneas. Mas perder o recurso natural devido a poluição de um outro município é um fato desconhecido da maioria das pessoas, especialmente de quem leciona e desconhece a hidrografia e o relevo natural que constitui a base econômica das famílias rurais.
Mas lá estava, marcada em uma das faces do monumento, o pescador com a canoa manuseando a rede de pesca da tainha. O povo não quer apagar da memória a atividade econômica e nem as histórias que povoa o folclore da localidade. A devoção ao Santo padroeiro é um convite para o resgate da memória de um tempo de prosperidade onde açorianos junto aos afros e indígenas acenavam a uma nova ordem: plantar e colher para comer com fartura junto aos frutos da pesca e da caça. Depois era só agradecer ao bom Pai.
Porém, a desolação do povoado mostra que a poluição não perdoa o dolo da humanidade. Pena que sofra o justo pelo pecador...mas fazer o quê? Todos pagam pelo pecado social. Dalí seguimos para o Balneário Rincão onde iríamos almoçar um peixe saboroso no Pedro Luiz. O restaurante é de um dos filhos da terra, e nada mais natural que passar por aquele ambiente. Antes passamos pelo Capão dos Papagaios, observamos a vegetação característica daquela espécie de solo. Como o dia estava escuro e havia chovido durante a noite, não foi possível adentrar-mos no capão e nossa observação ficou restrita à janela do ônibus. Mas valeu!
Depois seguimos para o restaurante para sentirmos um pouco de chão. Especialmente poder sentar um pouco sem a trepidação que as estradas mal conservadas nos proporcionou. E quando o aroma da refeição chegou até nós, iniciamos o almoço enquanto o peixe foi sendo fritado na sequência. Ninguém resistiu esperar mais e o pessoal se desdobrou para dar conta do recado. Alimentados e satisfeitos seguimos ao encontro da nascente do Rio dos Porcos. O percurso até a Vila São José foi uma maravilha! Afinal seguíamos por rodovias asfaltadas. Fomos até a Vila Nova, pela Rodovia SC 444, depois tomamos a BR101 e seguimos pela Rodovia Lino Zanolli. No acesso a São Rafael seguimos novamente por uma ICR até chegarmos à nascente do Rio dos Porcos, na localidade do Morro Bonito. Em certo ponto o professor Jairo pediu que o Silmar parasse o ônibus e nos mostrou o novo limite entre Criciúma e Içara. É uma faixa de terra significativa que foi demarcada. Uma perda inestimável !
Ali alcançamos a nascente do Rio dos Porcos na origem, um olhinho d”água choroso que vai cortando outros terrenos e, como observamos, vai recebendo mais água e se avolumando enquanto vai também recebendo detritos e sendo poluído pelas lidas naturais do homem. Passamos por diversas localidades: São Rafael, Poço Oito, Boa Vista, Coqueiros, Campo Mãe Luzia, Canjicas, Barro Vermelho, Rio dos Anjos. Paramos para ver quando as águas do Rio dos Porcos se juntam ao Rio Araranguá. É belo ver como há uma diferença na coloração das águas. É como se elas não quisessem se misturar com as outras águas trazidas pelo Araranguá em seu longo percurso. E como pudemos observar, houve uma transdisciplinaridade com a participação ativa de todos os professores, independentes da disciplina que leciona.
O conhecimento globalizado deu margem a muitos argumentos, mas creio que uma opinião foi unânime: Valeu! Como diriam nossos caboclos: Êta aula arretada!
Parabéns Antônio Guglielmi Sobrinho pela valorização de Nossa Terra e de Nossa Gente...
Até a próxima semana com mais um assunto.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

COLUNISTA - Elza de Melo


Nuances de Vidas em Crônicas (54)

Logo que retornei de minha licença de tratamento de saúde, o professor Jairo Bitencourt me comunicou que teríamos um estudo de aperfeiçoamento dos professores da Escola Básica Antônio Guglielmi Sobrinho, no bairro Vila Nova. Este estudo seria orientado por ele, professor da disciplina de História. Como sou historiadora de Içara, ele pediu a minha colaboração já que ten-cionava usar uma metodologia inovadora. Estava planejando uma viagem aos limites do município e a explanação do assunto sócio-histórico e o político- geográfico abrangendo desde a demarcação territorial, a mobilidade social, os ciclos econômicos até os dias atuais. Um dos pontos de destaque seria a observação do Rio dos Porcos, desde a nascente, acompanhando os meandros, até a junção às águas do Rio Araranguá para desaguar na Barra. O Rio dos Porcos drena na bacia hidrográfica uma área de 127Km², ou seja, 42,5% do território de Içara. Além do mais, ele corta o bairro de Vila Nova, onde está situada a nossa escola.
Não poderia haver aula mais instrutiva e motivadora a aula que o professor planejara. Mesmo tendo algumas precauções com a minha saúde, não pude deixar de participar do estudo. Estava claro que o professor, conhecedor de todo o município e que também lecionou Estudos Regionais, sabe da necessidade do professor ter conhecimento sobre a cidade para poder contextualizar as aulas e assim obter êxito na aprendizagem dos alunos. Afinal não podemos ensinar o que desconhecemos. Conhecimento é fundamental para um professor que tem a prática de ensino como ferramenta de trabalho.
Nerilda, a diretora, achou uma idéia inovadora fazer o nosso estudo na fonte histórica e geográfica. Seria como ir à fonte em busca de informações para trazer para a sala de aula. Assim, dividido em etapas saímos em campo para pôr a prática e a teoria lado a lado. A Secretaria de Educação do município (Giovana dos Santos) forneceu o ônibus e o motorista, o prestativo Silmar, e lá fomos nós socializar com os colegas o que sabíamos e colher deles a sua participação. Beleza!
Nosso primeiro ponto foi buscar o limite entre Criciúma e Içara. Não temos mais o pórtico demarcando os limites, mas sabemos muito bem onde está a divisa de onde termina Içara e inicia o território criciumense. Descemos pela Linha Anta e seguimos rentes aos limites de Criciúma, Morro da Fumaça, Sangão, Jaguaruna. Observamos a lavoura de fumo em vários estágios e comentamos a necessidade de um novo produto agrícola ou uma inovação econômica para os fumicultores. Afinal, não se pode tirar algo se não tivermos outra oferta para a segurança econômica dessas famílias. Trabalho é dignidade e o agricultor, geralmente está desqualificado para o mercado de trabalho urbano. Daí a preocupação em manter a família no contexto sócio-político. Deixar o homem do campo desocupado é o mesmo que contribuir com a escassez de alimentos, o encarecimento do custo de vida, o êxodo rural e a desestrutura das famílias. Entretanto é necessário olhar para a segurança e o bem estar da população rural. Mesmo estando no campo é necessário dar instrução aos filhos e qualificá-los para qualquer eventualidade. Este é o olhar que o professor Jairo e a equipe pedagógica têm com os estudantes dessas localidades longínquas e de difícil acesso.
Pois bem, em algumas localidades paramos para conversar e refletir as mudanças que o tempo se encarregou de fazer, quer no povoado ou na população. Entre os longos tapetes de lavouras avistávamos as moradas cuidadas; algumas muito boas mostrando o estatus de quem as habitava, outras bem modestas, mas nenhuma tinha o ar desolado de uma favela. Havia um envolvi-mento com a terra, com os animais, com as pessoas vizinhas ou familiares. Daí é que se pode observar o compromisso do homem com o meio ambiente, especialmente com as águas. Afinal o nosso primeiro objetivo era acompanhar a nascente e o processo de drenagem hidrográfico de nossa terra e, em contrapartida, olhar o ser e o fazer de nossa gente.
Até a próxima semana com mais um assunto de interesse dos içarenses.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (53)

E se a prática de ensino-aprendizagem está sendo pesada, os alunos não querem nada com o estudo; é hora de professores, pais e direção das unidades escolares sentarem para falar e resolver os obstáculos do educando.
A família precisa ocupar o seu espaço, manter a obrigação de cuidados físico, mental e moral do filho. Se a família está omissa, é hora da escola cobrar dos pais, mas é necessário que os professores tenham práticas de ensino coerentes para o desenvolvimento da aprendizagem. Infelizmente há professores que não possuem o mínimo de domínio de classe. Eles se igualam a certos pais que esperam que a escola eduque os filhos. São pais alheios ao papel de educador, de responsáveis por pessoas que colocaram na sociedade e não sabem o que fazer deles, para onde direcioná-los, pois nem eles mesmos sabem o que querem; estão perdidos. Esperar que as instituições eduquem aos filhos é muita imaturidade dos pais.
Houve um tempo em que os pais diziam aos professores: aqui você decide sobre ele e o que me for de minha competência, me avise que eu corrigirei. Aqueles pais que não se isentaram de corrigir as falas dos alunos no âmbito escolar fizeram cidadãos bem mais atuantes na sociedade. Havia políticos mais decentes, comerciantes mais entrosados com o mercado nacional, médicos mais disponíveis para ouvir o doente, professores mais comprometidos com o ensino-aprendizagem, jovens mais sadios e engajados com a sociedade, pais mais participativos e orgulhosos com o sucesso dos filhos, mães que tinham gosto em cozinhar e amor à saúde e ao bem estar dos filhos. Vivia-se em família e para a família. As drogas estavam bem mais longe e o sucesso bem mais perto dos indivíduos. Infelizmente, hoje, a droga vem destruindo os lares é uma constante na vida de muitos jovens, que se transformam em verdadeiros zumbis nas mãos dos traficantes.
Os vencedores de nossa terra foram jovens comprometidos com os valores humanos e com a sua educação informal e, quando possível também com a educação formal. Eles souberam e sabem ler em linha horizontal e em linha vertical os valores humanos e o sucesso de sua missão.
Até a próxima semana com mais um assunto.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (52)

Saiu o resultado do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Brasileira) e mais uma vez pode-se concluir que o sucesso das notas das avaliações está na frequência da leitura e da escrita. Foi uma das escolas mais humildes do Estado de São Paulo que obteve a melhor nota. A diretora e as professoras mostraram que não ficam desvalorizando as competências humanas ou supervalorizando os recursos que não possuem, inclusive recursos tecnológicos. No entanto as professoras planejaram e seguiram com critérios as possibilidades pedagógicas inerentes da leitura e da escrita. Seguem a infalível receita para o sucesso – aprender praticando. Não há aprendizagem sem a prática, assim como não há amor sem a expressão do carinho. E são os professores os mediadores do processo ensino-aprendizagem, pois não se educa com palavras, mas com exemplo.
Em minha vida profissional tive poucos recursos te-cnológicos ou midiáticos. Minha pequena e multisseriada escola era desprovida de qualquer recurso humano que não fosse a professora e os alunos. Sim, porque meus alunos também ensinavam a experiência recém adquirida da família. Eles eram ouvintes, mas eram também falantes da linguagem materna, da participação no dia-a-dia da família, da comunidade e da individualidade criativa. Sempre havia alguma habilidade para repassar aos colegas à equipe de pesquisa, à escola. O aluno era um aprendente, mas também um ensinante do que já sabia e do que ia aprendendo. Sempre mantivemos uma prática socializada. Não foi uma novidade minha ou um método criado por mim, minha prática de ensino foi adquirida das minhas inesquecíveis professoras do Curso Primário: dona Leonir, dona Constância, Cilézia Cardoso, Lourdes Mello. Com elas eu aprendi o segredo do código lingüístico, o fascínio pela leitura e o valor da escrita. Depois veio a admiração pela história mostrada pela professora Maria Euníce Fernandes, pelo professor Altamiro D’agostim, o encantamento pela geografia vista pelos olhos da professora Dirce Carrador Silva.
Foi o encaminhamento desses professorees que me deram base para as árduas pesquisas que mantenho no sentido sócio-histórico de nossa terra nossa gente. Os professores são verdadeiramente medidores em uma sala de aula.
Continuo na próxima edição.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (51)

Dia destes me surpreendi com a nota de um estudante da UNESC que cursa História. Ele falava que não há nada escrito sobre os indígenas e os africanos. Argumentava, ainda, que ninguém se preocupou em escrever sobre as duas etnias e só se preocuparam a falar sobre os imigrantes açorianos, italianos e poloneses. Como o texto estava no Jornal Içarense, posso deduzir que ele seja um içarense também e, certamente conhece o compromisso da Secretaria de Educação da Rede Municipal de Içara com o Ensino e a Cultura. Lembrei-me de todo o tempo de pesquisas, as consultas aos documentos históricos, a viagem aos Açores, a visita do Grupo Folclórico “As Doze Ribeiras” da Ilha Terceira em Içara. Convite feito por mim quando lá estive em curso daquela cultura. Foram tantas coisas construídas e vividas para que saísse duas edições da história do município. Tais edições foram pagas pelas administrações municipais, Deobaldo Pacheco e Henrique Guglielmi, 1998, e em 2006 revisada e editada pela administração, Heitor Valvassori e Naelti Vianna.
Em todas as edições o município trabalhou no ensino-aprendizagem as etnias indígenas que em contato com a população lusófona iniciou a primeira cultura econômica, a farinha de mandioca, desconhecida de portugueses e açorianos; e a etnia africana que deu o suor nas roças e nos engenhos e junto aos senhores e sinhozinhos conviveram, sonharam e sofreram como todos os pioneiros que aqui viveram nos primeiros tempos de colonização. A cultura das duas etnias foi absorvida pela miscigenação. Não fosse o fato de o africano ter a tez e os traços anatômicos mais pronunciados, dificilmente os reconheceríamos entre a população.
Fiquei um tempo pensando como acontece o ensino, especialmente como se processa a formação de professores que irão atuar nas escolas e na formação de novos profissionais de educação. As pesquisas que são feitas e direcionam o ensino de um município não poderiam ser desprezadas, e sim, enriquecidas para ser ainda mais utilizada, creio eu. Especialmente agora em que os municípios já possuem a Proposta de Ensino e que o Ensino Fundamental passará a ser de compromisso dos municípios. Não foi à toa que a CONAE foi trabalhada em todas as cidades através das propostas.
Mas voltando as edições de O Município de Içara Nossa Terra Nossa Gente, (2006) o Capítulo III trata com fidedignidade dos indígenas em Içara, a presença e cultura. Um fato muito marcante da tradição oral é o avô do Heitor Valvassori ter sido casado com uma moça de origem indígena, e isto o fazia tão orgulhosos de suas origens. Outros moradores de Urussanga Velha também foram casados, ou casadas com jovens descendentes dos índios daquela localidade. Assim a cultura indígena foi muito absorvida e vivida pelos primeiros içarenses. O mesmo se pode afirma da cultura africana que tinha o seu orago e a festa dedicada à sua cultura em Urussanga Velha.
Içara não contará a história com fidedignidade se não embasá-la com a contribuição das etnias indígena e africana. O Museu Arqueológico da Igrejinha do Balneário Rincão fala por si sobre a presença Indígena e os muitos rostos morenos comprovam que a cultura africana plasmou a cultura içarense bem nos primórdios de seus dias. Outra comprovação rica da presença multiétnica no município de Içara é o monumento na localidade de Urussanga Velha, no pátio da Capela São Sebastião. Nele há, impressas as matrizes formadoras do povo içarense, e participadora da sua formação cultural.
Creio que se fosse valorizada a contribuição e o compromisso com a cultura popular, a educação seria bem mais contextualizada e internalizada em seu conhecimento cientificado. Afinal, educar é uma arte de amor e o compromisso com a verdade e os valores deverão estar sempre muito presentes em quem ensina e em quem aprende. Até a próxima edição.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (50)

Não faz muito tempo, eu ía indo às salas de aula da escola aonde trabalho, observei duas meninas usando as pulseirinhas do sexo. Chameias para uma conversa em minha sala e perguntei se elas tinham conhecimento do que significava as tais pulseirinhas. Para minha surpresa uma delas falou que sabia sim e ela usava todas as cores, mas não deixava que os meninos as arrebentassem para não pagar a prenda. A outra adolescente não sabia o que significava as pulseirinhas e comprouas por achar interessante a combinação multicolorida. Então pedi para que não usassem mais as pulseirinhas. A primeira menina tentou questionar dizendo que a escola não tinha nada a ver com o que ela usava ou não. Já a segunda menina falou que iria jogá-las no lixo e não tornaria a usá-las. Continuei a observá-las ainda e pude constatar que elas não estavam mais usando as pulseirinhas. Vi que os meus argumentos foram frutuosos.
Alguns dias depois encontrei a mãe de uma delas, que também trabalha na mesma escola, e ela colocou-me que a menina falou sobre a conversa que tivemos na secretaria e agradeceu-me por alertá-la. Realmente elas não sabiam. Para elas era mais uma modinha que as adolescentes aderiram e não um apelo erótico divulgado pela mídia. E vocês pais e mães, conhecem o significado e a origem das tais pulseirinhas?
Baratas e fáceis de adquirir, essas pulseiras de silicone e em cores variadas fazem parte de uma brincadeira conhecida pelo nome de snap, que em inglês significa arrebentar. O jogo funciona assim: a menina coloca várias pulseirinhas no braço, em diversas cores, e qualquer rapaz pode-rá arrebentar uma delas. Se ele conseguir poderá exigir a prenda que é justamente o código das cores:
A cor amarela – quero um abraço. A cor rosa – mostre os seios para mim. A cor laranja – a dona da pulseira recebe uma mordiscada. A cor roxa – ganharei um beijo de língua e talvez sexo. A cor vermelha – você fará um strip tease para mim. A cor verde – sexo oral a ser praticado pelo rapaz. A cor branca – a menina escolhe o que lhe apetecer. A cor azul – sexo oral praticado pela menina. A cor preta - sexo com a menina. A cor dourada – tudo o que foi anteriormente citado. Realmente é uma suposta conexão sexual.
De qualquer maneira muitas meninas estão fazendo uso de um acessório que possui um código e, dessa forma estão correndo riscos ao emitirem sinais que podem ser interpretados por pessoas que se aproveitam de situações para estabelecer uma abordagem sexual e, até mesmo violenta como aconteceu em Manaus. As três jovens que portavam as pulseirinhas foram estupradas e duas delas vieram a óbito.
Mas seja lá o que as pessoas pensem sobre o assunto esta é uma oportunidade para uma conversa muito produtiva entre professores e alunos ou pais e filhos sobre os riscos do uso das tais pulseirinhas. Proteger a criança e ao adolescente é primeiramente compromisso dos pais, da escola e da sociedade. Só em último caso deve-se apelar para outros órgãos para que haja a execução das Leis. Educar é um ato de amor e só a educação promove os valores que dão suporte a uma sociedade justa e fraterna.
As primeiras leis devem ser sempre as regras que rege a família no contexto do lar, creio eu. Assim fomos educados em nossa geração e precisamos passar adiante os preceitos mais saudáveis para as novas gerações.
Até a próxima edição sobre assuntos de Nossa Terra Nossa Gente.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (49)

As ruas se enchem de verde e amarelo. O assunto mais recorrente é o evento esportivo internacional do futebol, a Copa do Mundo. Idosos, jovens, crianças estão sempre dando palpites sobre a seleção vitoriosa e, é claro, torcendo pela sua seleção de nacionalidade. Entre os palpites há sempre um craque, um salvador da Pátria. E cada seleção tem o seu craque invencível, o seu mito, mesmo que seja apenas por um espaço da Copa. A união pela torcida de uma copa é visível em qualquer país.
Esta Copa nos traz o país sede com as especificidades. Há todo um contexto cultural que irmana o continente a-fricano a outros países europeus, asiáticos e americanos. Até porque segundo estudos arqueológicos, a Eva, a mãe da humanidade é uma africana. Então há um apelo lógico para a cultura africana estar enrustida na civilização atual. Os jogos nos mostram diferentes cidades produzidas para o evento e um povo simpático, sorridente, afável e presente com seu jeito de ser e de viver esbanjando o colorido tão usual. No momento não importa ao africano os jogos pelo qual passou, a exploração e as humilhações sofrida pela nação. Um só ideal direciona o evento; a vitória!
Enquanto a bola rola no gramado africano, em solo brasileiro toma vulto o pleito eleitoral do ano 2010. A vitória ou a derrota da seleção brasileira não renderá voto a nenhum dos candidatos. Então a campanha eleitoral não poderá parar para aplaudir ou recriminar os jogos que andam independente da ocorrência política. Há convenções e apresentações dos partidos políticos. Há um fato novo pairando no ar com o lançamento de duas mulheres para a majoritária presidencial. Um fato raro no Brasil! Um país onde o machismo ainda domina a política, ter uma candidata é um fato até curioso. Normalmente o voto da família é liderado pelo marido e cabe à mulher e aos filhos votarem juntamente com o pai. A mulher sempre foi a sombra amiga de todos os candidatos. Muitas vezes este preconceito deixou de render votos como no caso das ele-ições de 2002, quando em entrevista o candidato Ciro Go-mes respondeu que a função da esposa, a atriz Patrícia Pilar era apenas dormir com o candidato a Presidente. Uma bela grosseria pautada no preconceito feminino em relação à política brasileira respondida com a derrota de um candidato que se apresentava bem nas pesquisas.
Hoje, José Serra e Dilma Rousseff protagonizam a campanha presidencial, ambos rigorosamente empatados. Por outro lado corre a candidatura de Marina Silva, saída do PT por algumas desavenças e agora concorrendo pelo PV. Para crescer ela precisaria se desvincular do rótulo de partido verde e tomar a dianteira da luta como mulher, negra e comprometida com os temas atuais como: educação e as políticas sociais. Assim, percebe-se que o PSDB pretende cortejar Marina Silva com a esperança de que, no segundo turno, os seus votos recaiam para Serra e não à candidata do PT com que Marina Silva teve desavenças quando ambas eram ministras do Governo Lula. E assim segue a campanha eleitoral precisando aumentar o percentual devotos com a busca de mais um eleitor, assim como a Copa segue tentando mais um gol para eliminar o adversário e conseguir o título no futebol mundial. Há todo um jogo de interesses para o fim almejado, a vitória.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (48)

O sol deu o ar de sua graça. Tudo reflete a beleza de um dia de inverno ensolarado. O frio é ameno e as aves gorjeiam em cada recanto verde, ou mesmo nas árvores das praças, que são lugares democráticos e ecológicos. Se preservada pela comunidade local, torna-se um nicho ecológico fundamental para a conscientização humana de que cuidar da natureza é cuidar do futuro da humanidade. Tivemos o alerta na triste constatação do que está ocorrendo nas praias catarinenses, no momento, é o resultado das ações humanas de um tempo passado e, na maioria das vezes quem atuou para a transformação do quadro ecológico não chegou a viver para fazer a interpretação da nova leitura. Que pena!
Em algumas décadas passadas as transformações demoravam mais para ocorrer. Hoje é mais acelerada devido a poluição, ao efeito estufa, ao crescimento demográfico e a ocupação de lugares impróprios pela população. A pressa vertiginosa dos dias atuais não deixa tempo para as avaliações do feito e do fato. O resultado de tudo, especialmente das catástrofes, recai sobre o governante que por sua vez remete para o superior imediato e vai subindo na escala dos governos e a população sofrendo as perdas. O incrível é que pessoas muito simples, trabalhadores, pescadores, agricultores, sabem as razões e as medidas que poderiam ser tomadas. Dificilmente um secretário conhece tanto os recantos das localidades como as pessoas que nasceram, cresceram e vivem ali observando e vivendo as transformações ambientais na localidade. Entre as mudanças em Içara, podemos apontar algumas que fez a diferença em um pouco menos de meio século:
Cito como exemplo o desvio das águas do Rio Urussanga, próximo da Lagoa da Urussanga Velha, com a finalidade de secar as águas e fazer uma várzea maior para a criação bovina, perdeu-se o berçário das tainhas. Acabou a entrada dos cardumes na subida da tainha corseira a procura de águas mais quentes para a desova. A localidade que tinha um ramo de sustentação na pesca da tainha (e de outros peixes) acabou per-dendo o potencial de subsistência e a população precisou abandonar seu chão para procurar o emprego para a subsistência da família. Houve uma mobilidade para o Centro do município ainda num tempo oportuno. Hoje as mobilidades já causam transtornos com os inchaços dos bairros desestruturados e das famílias sem habilitação, passando a ocupar bicos para a renda familiar. Habitando lugares de fácil aquisição, nas chuvas torrenciais, ficam à mercê da disputa com a origem do re-levo e da hidrografia que reclama e ocupa sem cerimônia o curso natural. As medidas tomadas duram até a próxima ocorrência.
Outra coisa importante a ser observada é o assoreamento das barras. Com a passagem e o desaguamento de tantos rios, riachos e lagoas, a barra precisa estar sempre em harmonia com o nível das águas que escoa. Se a barra estiver assoreada, não terá condições de escoar as águas que ultrapassaram do nível da capacidade e haverá inundação com perdas e prejuízos econômicos. A perda ninguém repõe e a população sofre o desespero de ver a lavoura descer com a correnteza das águas e a mesa ficar sem o pão necessário. Que pena que os secretários estejam nos gabinetes falando de tantos assuntos e não incluam as condições de vida dos munícipes. Quase sempre fáceis de resolver se fossem conhecidas por quem governa. Penso que aqui vale um velho e desgastado provérbio: “prevenir é melhor do que remediar”. Só quem conhece a sua terra e a sua gente é capaz de amar e de saber governar.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (47)

A chuva não da trégua. As estradas de chão como denominam as pessoas do interior, são verdadeiros lamaçais. A vida do trabalhador do campo está ociosa e a a segurança financeira, comprometida com as perdas das lavouras. Instala-se o caos no município com a população dos bairros a clamar por melhorias nas estradas que se encontram intransitáveis. É uma situação caótica, não há dúvidas. Mas enquanto chover desta maneira não adianta culpar o prefeito, o governo ou o Lula. Estamos vivendo uma situação inusiatada em todo Estado. Então vamos pensar um pouco. É culpa do Dário Berger se os moradores da Barra da Lagoa ou da Armação estão com as residências perdidas ou comprometidas? Conscientemente não podemos dizer que seja. Não só os mais empobrecidos perderam o quase nada que tinham. Alguns perderam as mansões construídas nas áreas mais nobres do litoral. Mas há alguns pontos que se observarmos com atenção percebemos como agressão à natureza. E então, no dia em que a natureza cobra a intromissão humana, o homem clama ou blasfema contra Deus. Se em Floripa houve o desvio do Rio Peri, em outros lugares houve a invasão dos vales, dos morros e até mesmo riachos que desapareceram com acão das terraplanagens. Para uns, a impossibilidade de comprar um terreno mais bem situado, para outros, a ganância de fazer terra onde era um escoadouro viável aos dias de alagamento como estamos passando hoje.
Mas voltando a realidade de Içara, é incrível pensar que a Rua Ana Joaquina, parte do loteamento situado em Pedreiras, pudesse estar alagada. Quando criança, costumava percorrer aquele espaço e conheço-o muito bem! A areia fina fil-trava qualquer chuva que caía sobre ela, em questão de segundos. Se hoje há alagamentos é devido a intervenção humana. Ter o Balneário Rincão alagado é normal e inevitável, a cidade está ao nível da orla marítima. Com calçadas, ruas pavimentadas, área residencial, o excesso das águas vão se acumular onde lhe sobra o espaço natural. E não há o que fazer em si-tuações emergenciais. O caos foi sendo instalado aos poucos, quase sempre com a clandestinidade dos loteamentos, os jeitinhos a ajeitamentos tão comuns aos afilhados das administrações. E depois vem o troco, é natural! Mas também não se pode cruzar os braços e dizer que tudo é culpa do outro. Afinal, quando o sol brilha no espaço e a vida segue o curso natural, parece que todos esqueceram das calamidades.
Dia 16 de maio, sai para observar como estavam as vias de acesso às comunidades rurais, nossos alunos estavam faltando às aulas e não havia comunicação. Telefones são raros nessas comunidades. Até mesmo o celular é difícil de acessar. Então fui verificar in loco. Se a situação não trouxesse tantos prejuízos às lavouras, como pude observar a safra do feijão perdida, o espraiar do Rio Urussanga fazia uma paisagem bela. Atrás da Capela São Sebastião, as águas se espalharam pelos campos e cobriu toda a pastagem. Não se avistava a ponte de acesso ao Torneiro. Uma casa além da ponte parecia que estava a flutuar nas águas do Urussanga. Descemos pelo Rio Acima e não tivemos passagem nos Tibuques. Voltamos e pegamos o acesso Urussanga II. Observamos com pesar que os estragos estavam em todos os lugares. Ao chegarmos próximo do Alto Alegre já vimos o rio espraiado.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (46)

Tomo, hoje, o exemplo de Franklin Cascaes, um conhecedor da cultura popular catarinense, argumentando que conhecer é a primeira razão para amar o povo e a sua história de vida. Sabemos que o nosso primeiro conhecimento nos é fornecido pela família. E por esta razão nossos antepassados tinham o cuidado de saber a família da moça ou do rapaz que se casaria com um de seus familiares. As atitudes em família eram base para se ter a pessoa por benquista ou não. Isto fazia parte do conhecimento do indivíduo. Se o berço, nobre ou pobre, marcava para algumas das etnias, outras o berço determinava valores fundamentais para a base da formação de um lar. E é sempre de um lar que saem governantes, pastores e ativistas sociais.
É preciso ter olhares mais atentos para a escolha de um cargo eletivo. A idéia de que sendo do partido tal basta para merecer o voto já está comprovada que não é uma prática legal. Uma cidade precisa ser governada por pessoas sensatas, sadias emocionalmente e de mente larga e aberta para o desenvolvimento e os avanços vertiginosos que se faz nos dias atuais. Além de um futuro governante estar com uma comprovação de escolaridade a altura de seu cargo, ele precisa ter também uma formação política bem estruturada para não se deixar corromper pelos apelos do poder. Tal fundamentação é possível se conhecer pelas atitudes no decorrer até de uma campanha eletiva. E se o partido que lhe empresta a sigla não tiver poder de convencimento de mudanças de atitudes, não deve lhe dar guarida pa-ra não cair no descrédito junto aos filiados.
Ganhar uma eleição depois de tantos desgastes, de tantas lutas e ficar marginalizado, não é mérito nenhum para um partido. Afinal, aprendemos em nossa herança lusófona que a prefeitura é a casa do povo. Que acolhida tem o povo em uma casa que não o reconhece? Que força terá o povo que não recebe as benéfices do seu voto, dos seus impostos? Pessoas egocêntricas e infantis não possuem maturidade emocional para ser um governante. A história nos mostra centenas de pessoas que foram perversas e tiveram atitudes nocivas à sociedade do seu tempo. Basta pensar em Nero e o incêndio de Roma, Hitler e o desencadeamento da Segunda Guerra Mundial.
Para nós içarenses que temos um município ainda novo, é fácil lembrarmos de nossos governantes e avaliarmos os feitos de cada um. E na avaliação de um mandado está também implícita a atuação da Câmara Legislativa. Há vereadores que se tornaram história no seu contexto. Podemos citar a memória de Gervásio Teixeira Fernandes, que representou o Distrito de Içara em Criciúma e lá terminou os dias como funcionário público, independente do partido de militância. O que contou foi a honestidade, a austeridade. Jorge Elias de Luca que também representou Içara, quando Distrito, e deixou herança política nas mãos do filho e genros.Nobre é a sua história de atuação política. Vital Daniel Broca que foi um militante até o final da vida sem desvirtuar a sua trajetória de representante de um município em formação. Zefiro Giassi que preservou o o valor comunitário e hoje representa o município em sua expansão econômica. Pedro Dal Pont, um baluarte na formação emancipatória de Içara que saía do seu trabalho para legislar para o povo, independente de salário ou projeção social, entre outros que mesmo não estando aqui incluídos, não foram esquecidos da memória dos içarenses, pois merecem o nosso louvor, respeito e a nossa gratidão.
E finalmente, parodiando Paulo Freire, o educador brasileiro, devemos sonhar sonhos possíveis. O povo precisa ter utopias, o povo quer alçar vôos de idealizações, mas para isso é preciso haver realizações.
Sonhos que se sonham juntos precisam ser transformados em ações e representados em obras, em bens públicos. Esta é a finalidade de um governo, quer seja municipal, estadual ou federal. E sabemos que a segurança ainda está na Câmara Legislativa. Ela será a eterna Casa do Povo, assim como os vereadores serão os seus legais representantes. Afinal a voz de uma comunidade se faz ouvir na voz de um vereador quando ocupa a tribuna.
Até a próxima edição com mais um assunto.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (45)

Em Santa Catarina a democracia foi alinhavada aos moldes das freguesias açorianas e as Câmaras governavam com o seu presidente. O lugar de prefeito é algo recente, uma figura facultativa, no início dos governos, que só tomou sentido quando as freguesias se tornaram municípios.
Entretanto os vereadores foram os primeiros e verdadeiros representantes do povo e na figura do seu presidente, governaram com eficácia as primeiras cidades catarinenses. Tivemos em Santa Catarina verdadeiros estadistas, inclusive um presidente da Republica, ainda que provisório.
Içara, cidade mais recente na emancipação municipal, já teve prefeito, acompanhado das Legislaturas.. Entretanto a Câmara Legislativa sempre manteve muito bem a representação. Assalariados ou não, os vereadores deram e dão conta da responsabilidade. Além de lutar pelos direitos e o bem estar do povo, eles mantém verdadeiras lideranças entre a população. Afinal, são os vereadores que convivem nas comunidades e fazem o dia-a-dia entre a população, e não em um gabinete das Administrações Municipais ou Estaduais. Eles ouvem, eles atuam, eles convivem, e eles dignificam o diploma de vereador. O interessante é que ultimamente os deputados, senadores e governadores sabem do valor de um vereador, de seu poder de liderança, enquanto alguns prefeitos lutam contra os próprios conterrâneos e companheiros de sigla que procuram manter a coerência de seu discurso eleitoral.
Que pena! Esses prefeitos não compreenderam ainda que um município pode muito bem ser administrado por um representante da Assembléia Legislativa, enquanto um prefeito não pode governar sem a representação legislativa. Até mesmo um bom secretário faz melhor governo que um prefeito de idéias estreitas e visão política ofuscada pela pequenez de seus ideais.
Governar é preciso, mas com justiça e com sabedoria, senão torna-se um desgoverno, especialmente quando surgem as perseguições políticas querendo queimar a imagem de alguém. Só faz algo valioso quem pensa grande e tem um grande amor para com o seu semelhante. Içara, que já é grande por fora, precisa crescer também por dentro, especialmente em seus valores. Nós amamos Içara e queremos o bem da cidade!
Até a próxima edição, leitores, com mais um assunto de Nossa Terra, Nossa Gente!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (44)

É normal o povo falar em democracia, até porque ela é a palavra mais usada nos palanques eleitoreiros. Não há político que não explane os seus ideais recheados de democracia aos eleitores.
E quando um cidadão pensa em democracia, ele tem a suave ilusão de viver uma democracia plena em seu país. Mas, se a fala é o resultado do pensamento, é preciso muitas vezes rever os conceitos que temos sobre democracia. Afinal, existe muita falácia sobre assuntos que pensamos ser de fácil compreensão ao povo.
Tenho até um pouco de vergonha quando legisladores não entendem a sua importância para u-ma população. Mas tenho muito mais vergonha quando vejo cidadãos que ainda não sabem definir, ou entender o valor de um edil que está presente na multidão e que se faz voz do desfavorecido em uma tribuna da assembleia, seja ela municipal ou estadual. E se essa pessoa ocupa uma posição de mando em algum órgão público, isso me deixa até mesmo constrangida, pois a referida pessoa não atua em sua função, ou seja, apenas finge que faz algo, mas nada faz pelo consumidor e se acha o tal.
Pois bem, a democracia coroada não sobreviveu no Brasil para prolongar uma agonia antiga como a de Portugal, mas para conceder-lhe uma vida acima da outra, uma vida nova. O que deve ser posto em relevo na personalidade do primeiro imperador é a integral adequação ao espírito do tempo. O respeito verbal às convenções burguesas; seu sexo e sua espada empinados por debaixo da capa do amante furtivo de São Cristóvão, ou do comandante liberal do Porto, a fidelidade a filha rainha portuguesa, o entusiasmo pela liberdade e o gosto pelo despotismo, nada lhe faltou para ser o herói romântico do século.
Em seguida a substituição do segundo Pedro, um Bragança brasileiro que encarnou a grandeza, o espírito do tempo em que viveu. De menino louro a velho barbudo, nunca apareceu sorrindo em nenhum retrato. Mas era grande, muito grande em teimosia, era muito maior que o meio onde reinava. Fez grande esse meio, fez o Brasil, que era grande por fora, também grande por dentro. Pedro II fez um reinado mestiço-europeu. Os eleitos falando bonito no Senado, mas incompreensível para os eleitores, enquanto viscondes e marqueses tomavam café em Petrópolis, no Rio de Janeiro. No entanto o povo amava o Imperador.
Até a semana que vem com a continuação...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (43)

Neste ano precisei ter um olhar mais direcionado a minha saúde. Como sempre fui saudável, fazia uso de certos cuidados com a saúde e as muitas receitinhas que nos são repassadas, sobretudo as receitas que nos acompanham em família.
E a vida ia seguindo, afinal a juventude é um aliado importante ao bem estar humano, mas depois dos quarenta, ai tudo vai a declinar e passamos aos achaques depois dos cinquenta. Mas... tudo bem!
Afinal a medicina está evoluída e tenho um plano de saúde que me proporciona acesso a alguns dos benefícios do novo século, com um retorno de cooparticipação mais suavizado. Fui a luta!
Minha primeira comparação foi com a clínica onde realizei a minha consulta. As meninas muito atenciosas e tudo tão imaculadamente branco e limpo que demonstrava o compromisso com a saúde. Lembrei-me então de minha primeira consulta médica no posto de saúde com o competente médico Raimundo Perez. Ao ver minha mãe com os cinco filhos em consulta, todos com o mesmo número, ele fez o mesmo diagnóstico dizendo-nos ser verminose pois minha mãe queixou-se que tínhamos inapetência e outros sintomas que estavam retratados, em nós e em todas as crianças daquela época que brincava de pés descalços e tomava água em qualquer nascente.
Então ele nos receitou os terríveis comprimidos vermífugos seguidos de um intervalo de sete dias para iniciar com o fortificante, o famoso biotônico, aquele mesmo que Monteiro Lobato, na literatura brasileira, fez a propaganda ilustrativa com o Jeca Tatu. E desse tempo em diante, nunca mais houve consulta médica para nós.
De lá para cá, muita coisa aconteceu em meu município. Onde funcionava com todos os atendimentos da época (e gratuitamente) o posto de saúde, há uma clínica ginecológica (particular) com um casal de bons médicos. Ele, Geraldo da Silva prestou atendimento pelo SUS e FUNRURAL por décadas a várias mães que, agradecidas, deram o nome de Geraldo aos seus bebês. Era o reconhecimento pela dedicação e carinho que o médico recém-formado dispensou a população içarense, sobretudo a população mais carente.
Até então a única gratuidade dirigida às mulheres era o atendimento do exame ginecológico preventivo, trazido pela perseverança de Terezinha Sampaio Gastaldon e continuada por várias içarenses abnegadas. O jaleco corderosa da Rede Feminina de Combate ao Câncer é o símbolo do trabalho voluntário em prol da saúde da mulher içarense.
Mas como o meu plano me dá certas possibilidades, procurei o laboratório da UNIMED para os exames. Onde morava o seu Érico Possamai com a sua família, funciona atualmente o laboratório. Há um atendimento especial e tive a grata surpresa em saber que o meu exame seria apenas coletado ali. O exame final seria feito na Espanha. Calculei o tempo do Voo até a Europa e confesso que fiquei com um pouquinho de vontade de voar junto. Mas tudo bem, afinal voltaria o resultado em quinze dias e neste tempo eu ficaria esperando para o retorno. Afinal, mesmo com o plano da UNIMED eu precisei esperar onze meses para a consulta com o endocrinologista e, feito os exames estou a esperar mais dois meses pelo retorno. Até lá, vive-se porque Deus quer. Era assim que acontecia antigamente. Antes de mim muitos viveram e muitos morreram e o diagnóstico era: morreu porque estava na hora, porque Deus precisava dele mais que todos aqui da terra. Eram tão boas palavras, havia quem se sentisse dando um prêmio a Deus. Hoje, se não fizermos tantos exames e tantas consultas nos dirão com certeza: morreu porque não quis gastar, não cuidou da saúde; que mão-de-vaca! E assim marcha a humanidade. Mas enquanto isso vai se desenvolvendo a assistência médica no município, e as coisa passadas ficam como um mote para a reflexão do ontem e do hoje.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

COLUNISTA - Elza de Mello


Nuances de Vidas em Crônicas (42)

Abril é um mês rico na história do Brasil: data natalícia da sua descoberta, primeira missa, dia do patriota Pedro Álvares Cabral, aniversário da Capital do Brasil, dia do Índio, do Livro Infantil em homenagem a Monteiro Lo-bato, entre outras datas e festividades. Entretanto as datas vão sendo esquecidas e hoje pouca gente sabe responder a razão do feriado de 21 de abril ou a referência histórica do dia 22 de abril.
Uma coisa, porém, é certa, a passagem de um governador pelas localidades de um município ainda é um fato que atrai pessoas de todas as idades e condição social. E isto eu pude comprovar quando no sábado estive em Esplanada, em Içara.
Muitos funcionários que ocupam cargos na Administração Municipal e nas autarquias do governo estadual foram convidados. Porém poucos estavam lá, especialmente os ocupantes de cargos da rede estadual. No entanto, várias pessoas que não costumam freqüentar eventos promovidos por setores municipais ou estaduais estavam lá. E pude comprovar in loco que há ainda uma grande credibilidade em um representante da democracia, seja no âmbito municipal ou estadual. O povo ainda sente o coração palpitar quando houve falar do seu representante. Pena que o político não pense assim! A grande maioria depois de eleito não tem mais olhares para o voto que lhe deu o poder, torna-se um déspota, pensa que é o tal e que podem governar sozinho
Pois bem, lá estava eu observando o povo que se aglomerou na localidade, pela passagem do governador Leonel Pavan. Todos tinham o seu interesse, é lógico. Afinal o governador iria premiar a localidade com o recurso para a sonhada pavimentação da rodovia que dá acesso a praia de Esplanada e a outros balneários do município de Jaguaruna. O sonho da pavimentação já é um pouco antigo, mas o efeito da poeira e do trânsito não dá tempo dos moradores esquecer.Nós que moramos às margens da SSC 444 somos solidários pois sabemos a dimensão deste problema. Só a pavimentação poderá amenizar a poeira incômoda e insalubre que invade nossas casas e nossas vidas. Afinal, quando se vive em comunidade tudo passa a ser comum a todos, até as desgraças.
Esta era a razão do pessoal de Sanga Funda estar presente àquela localidade. O acesso de Sanga Funda ao Barracão será também pavimentado no mesmo tempo em que o acesso à Esplana-da. Para o Balneário Rincão será mais uma via de desafogamento da SC 444, e isto é muito positivo. Para os moradores é uma bênção deixar de conviver com a densa nuvem de poeira que cobre a localidade quando os motoristas tentam sair do engarrafamento no retorno da praia, no verão.
Foram tantas os benefícios populares que o povo comprovou, entre eles uma creche para a Vila Nova. Embora muitas famílias, hoje, tenham um pequeno (mas significativo) rendimento em cuidar de crianças de mães trabalhadoras, a creche irá dar um pouco de tranqüilidade as mães que precisam estar o dia inteiro fora e deixam os bebês. Esta é uma grande conquista!
Enfim, as obras foram licitadas e esperamos que se cumpra o que vimos e ouvimos. Mas como sempre, fiquei a olhar o vai e vem e as aspirações do povo. Ainda restaram sonhos para serem contemplados: de uma idosa havia a esperança de termos atendimento à saúde de forma gratuita e urgente. De um senhor sério e honesto havia a esperança de termos governantes austeros e que soubessem ver a pobreza não como um problema, mas com generosidade humana capaz de compreender que os trabalhadores são a mola mestra da nação. A pobreza é apenas o resultado das desigualdades social, especialmente a salarial.
E para completar, quero deixar o pensamento do idealista açoriano, Miguel Torga: “ter um destino é não caber no berço onde o corpo nasceu, é transpor a fronteira uma a uma e morrer sem nenhuma”. Sonhos não se delimitam em fronteiras. Ainda bem!!!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

COLUNISTA - Élza de MELLO: Nuances de vidas em crônicas (Parte 13)

Gervásio era um alicerce sólido que a grande comunidade litorânea de Içara podia confiar. Desde a educação até as decisões socioeconômicas, o povo buscava o apoio do comerciante, que procurava sempre ajudar ao pequeno agricultor; impulsionando o progresso e o bem estar da população. E o neto não esquece a dose de carinho com que a avó partilhava na vida familiar. Não é a toa que se afirma que um grande homem tem a sombra uma grande mulher. Dona Bilica foi realmente uma grande esposa, uma irmã fraterna, e uma vizinha solícita; generosa para com todos. Protetora ao extremo, ela sofria cada vez que um castigo fosse aplicado a algum dos netos: Sebastião, Salmir, Sérgio, Silézio, como forma de educá-los. Não concordava com a violência. Então lá vinham os mimos, as guloseimas e os cafunés aos pequenos netos.

Dos moradores da localidade, ele fala com saudades e até admiração. Não esquece dos mandadores dos boi-de-mamão e dos ternos-de-Reis da infância: Manoel Marcelino, o Manoelinho; Antônio Inocêncio; Eusébio Vila Nova; Manuel Inocêncio; todos cantadores de Reis que deixaram a tradição das cantorias para os filhos e hoje estão com os netos. É muito bonito lembrar de Almiro Marcelino cantando as alvoradas e mandando o boi-de-mamão. Mas é maravilhoso observar o neto, Jean Marcelino Pereira cantando e mandando o boi-de-mamão, a exemplo do avô ou do bisavô. São lembranças e presenças marcantes em Içara.

Umas eu cheguei a conhecer, e até participar. Outras eu revivo na memória de pessoas que conviveram e que souberam compreender como sendo uma manifestação cultural de nossos ancestrais. E isto é manifestação cultural viva! É importante lembrar que as mulheres sempre estavam presentes, mesmo no silêncio feminino que a manifestação requeria. As mulheres não brincavam nas figuras do boi-de-mamão e muito menos poderiam se atrever a cantar nos ternos-de-Reis. Mas a participação era indispensável no recebimento e nas ofertas gastronômicas que a ocasião requeria: as broas degustadas com a consertada de vinho, e até mesmo a ceia com galinha ensopada, quando avisado com antecedência. Receber as visitas e os grupos que percorriam as localidades, em cantoria era auspicioso.

Toda a movimentação das carretas carregadas com farinha de mandioca para o embarque em Garopaba, indo e vindo pela praia ou, mais tarde, para os galpões próximos às estações dos trens, é muito lembrada por quem viveu algumas décadas atrás. Especialmente as crianças que viam na movimentação dos comboios de carros-de-bois uma aventura ímpar àquela época. Esta admiração fez com que voltasse a residir no Rincão e pudesse compartilhar com decisões socio-políticas de nossa terra e de nossa gente.

Quando falamos em decisões voltadas a este prisma da questão, percebo o engajamento nas decisões sobre os destinos de emancipação do belo e maravilhoso Distrito do Rincão; tão perto de ser Município. Seu avô, Gervásio, foi intendente do Distrito de São Sebastião – Urussanga Velha – e um dos veranistas do Rincão nas décadas final de 30/50. Também foi suplente de conselheiro municipal por Criciúma, nas eleições de 27/11 de 1926, levando 309 votos, enquanto o mais votado, Pedro Benedet ganhou 320 votos. É importante salientar que com a emancipação de Criciúma, a sua instalação deu-se em 1° de janeiro de 1926. A liderança de Gervásio está retratada pela expressividade dos votos que teve, assim como a população litorânea também se mostra pelos sufrágios levados pelo candidato da comunidade de Pedreiras.

Assim, o sonho de emancipação das localidades litorâneas de Içara não é tão novo, apesar de mudar de endereço e atrasar em algumas décadas. Mas valeu a pena sonhar. A utopia precisa prevalecer para termos novas realizações.

Nuances de vidas em crônicas (Parte 1)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 2)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 3)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 4)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 5)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 6)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 7)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 8)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 9)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 10)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 11)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 12)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 13)

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

COLUNISTA - Élza de MELLO: Nuances de vidas em crônicas (Parte 10)

Na vida agitada dos tempos atuais, os dias passam com tão apressadamente que quando nos damos conta, o hoje está virando a página para o ontem. Tudo parece acelerado e os meses se sucedem numa rapidez incrível. Não é à toa que os usos e a moda se tornem obsoletos tão rapidamente.

E assim quando me dei conta, o mês de agosto nos aponta que o dia 22, dia nacional do folclore já é passa-do, e nos convida a refletir sobre a importância na cultura de um povo. Vale a pena refletir a memória popular para entender onde e porque o folclore está inserido em determinadas localidades e regiões, especialmente em nosso município.

Em Içara, o folclore popular é farto de lendas, e as localidades são conhecedoras desta tradição antiga. Quase todas as lendas içarenses estão mescladas de superstições e de um certo misticismo.

Assim, no geral os seres mitológicos estão presentes, e são combatidos com diversas simpatias para a-menizar os sintomas do malefício ou o medo do pessoal. Seres fadados pelo destino e sofrendo o preconceito do povo que o conhece e sabe de sua triste sina.

E como não fugimos à regra das superstições, o mês de agosto é o mês mais escuro e nebuloso nas regiões das lagoas. O frio intenso faz com que as pessoas durmam mais cedo e acordem mais tarde. Especialmente, as pessoas nas localidades litorâneas que, habitualmente, levantam mais cedo para a labuta cotidiana. E entre brumas e escuridão nos campos e vales, surgem as histórias com personagens do imaginário popular. Há sempre um contador de lenda folclórica em qualquer localidade que possamos visitar. Há uma riqueza de causos e lendas entre o iça-rense em sua diversidade cultural.

Mas, para ilustrar a página de hoje, eu trago uma história acontecida em nossa terra, e com nossa gente, hoje registrada na obra: As Raízes do Saber Popular: os ritos, os mitos e o folclore.

A FADA MÃE DO OURO
Era uma noite qualquer. Ele levantou e atravessou o engenho. Abriu a porta que dava para o sul, e qual não foi o seu espanto ao ver uma mulher, ricamente vestida. Seu vestido branco resplandecia na claridade da lua, parecia ser bordado de fios de ouro e prata. Sua cabeça estava coberta por um manto que descia e acompanhava o vestido até a cintura.

A jovem, parecia contem-plativa. Estava parada debaixo da velha laranjeira, e parecia olhar à distância não dando pela presença do homem, que deslumbrado a observava.

Durante algum tempo ele ficou inerte, temendo despertá-la do devaneio. Depois se decidiu e pensou chamar a esposa, para que ela também visse tão linda aparência. Então virou para dentro de casa e chamou:

- Velha, venha até aqui. Ligeiro!

Em seguida voltou-se para onde estava a estranha mulher, e qual não foi o seu espanto ao ver que ela havia sumido. Um arrepio gélido lhe passou pela epiderme, e quando a esposa chegou até onde estava a imagem ela não viu mais nada.

Intrigado o homem ainda procurou ali por perto. Depois, aconselhado pela companheira, voltou para o quarto e ficou a ouvir a esposa em orações, temendo que a aparição fosse uma alma penada. Ele, por sua vez, pensava que uma imagem tão linda só poderia ser de uma fada ou de uma santa, uma alma pura e de lugar sagrado. Apenas o vizinho recordou-lhe que a Mãe do Ouro poderia tomar a forma de uma mulher e aparecer com todas as belezas de seu tesouro. E mais uma vez ele argumentou:

- Querem dar-te dinheiro homem de Deus. Deves cortar o teu dedo para que ela te entregue de uma vez o tesouro!

Será!!! Era uma vez ...

Nuances de vidas em crônicas (Parte 1)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 2)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 3)
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Nuances de vidas em crônicas (Parte 10)

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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

COLUNISTA - Élza de MELLO: Nuances de vidas em crônicas (Parte 9)

E então passou por mim a imagem de um tempo em que a Rua Marcos Rovaris, a única com calçamento, era o cenário dos desfiles do Sete de Setembro, das procissões das festas da Matriz, em especial a procissão de Corpus Christi; onde as janelas dos sobrados eram enfeitadas com as colchas bordadas ou estampadas, próprias para a ocasião. E mais impressionante, parecia que estava vendo a barbearia em pleno funcionamento.

Seu Lila veio de Jaguaruna para armar engenhos e o filho, o pequeno Bona era o coroinha na igreja do povoado. Depois, com a emancipação do Distrito da Vila de Içara para município, Bonifácio serviu no governo municipal por várias administrações, e sempre complementando a economia com a barbearia. Mas a predileção maior da vida foi a regência do Coral de Içara. Por décadas consecutivas Bona regeu (e ainda rege) o coral, com voz e coração. Não houve cansaço, estresse ou picuinhas partidárias que lhe afastasse do seu amor pelo canto coral. Se houve, como sempre há, as dores causadas pela injustiça administrativa municipal, Bona não usou como justificativa para a desestrutura do que fundamentou com talento e perseverança. Estava eu em meus pensamentos quando a Rian perguntou: - quer conhecer a sala da Casa do Escritor Içarense, Dona Elza? Eu automaticamente respondi: não precisa, eu já a conheço. Ela é uma página das mais ilustradas da história de nossa terra e de nossa gente.

A moça me devolveu um sorriso generoso, enquanto oferecia algo da pequena e aromada lanchonete. Então retomei ao seu agrado dizendo que, certamente estaríamos muitas vezes naquela sala, e saboreando o delicioso cafezinho que espalhava um aroma convidativo pela rua movimentada com as ofertas das lojas, naquele meia tarde ensolarada. Agradeci e voltei para a rua com a convicção de que as coisas não acontecem por mera coincidência. A sala quer ganhar vida como ganhou o texto escrito por Seu Lila sobre as desavenças pelo padroeiro São Donato. Escrever é preciso, pois é o registro da posteridade.

Nuances de vidas em crônicas (Parte 1)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 2)
Nuances de Vidas em Crônicas (Parte 3)
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